A uberização do mundo

A uberização do mundo

Segundo a última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2020, mais da metade da classe trabalhadora brasileira já estava desempregada. Apenas 49,5% das pessoas com idade de trabalhar estavam ocupadas no trimestre encerrado em maio. Isto significa que o trabalhador não pode vender aquilo que o capitalismo transformou em mercadoria, sua força de trabalho. 

A precarização do trabalho vem de décadas, mas no momento da maior crise do capitalismo tomou proporções absurdas. O trabalhador se transformou em um PJ (Pessoa Jurídica) ou em um simples cadastrado a um aplicativo. Ele não é o proprietário dos meios de produção e distribuição, embora assuma a responsabilidade por estes e pela distribuição.

Ele trabalha para várias empresas ao mesmo tempo; para o restaurante, para a farmácia, para sindicato; para qualquer empresa. Mas ninguém lhe dá garantias de nada, nem o Estado. Este processo tem sido chamado de uberização, porque é exatamente a relação de trabalho que existe da Uber com seus “agregados”.

Esse trabalhador chegou a tão alto grau de precarização que se assemelha ao do século 18 e 19, onde as jornadas de trabalhos só não ultrapassavam as 24h devido ao limite de tempo por dia, mas por incrível que pareça tem trabalhadores nestes aplicativos que são obrigados a virar as 24 horas. No entanto é uma situação nova de exploração.

Nunca na história seres humanos foram colocados em situação parecida. Até na escravidão que foi um dos sistemas mais deploráveis que já existiu, o escravo tinha alimentação e tempo para descanso, se ficava doente era tratado para não morrer porque isso seria prejuízo para seu dono. Hoje se um motoqueiro que está fazendo entrega sofre um acidente fica a deus dará, não tem direito nenhum.

Os operadores do grande capital internacional no Brasil, deram um jeito de destruir boa parte da legislação trabalhista e previdenciária, isso beneficiou as empresas que operam por aplicativos levassem os trabalhadores a um servilismo nunca antes visto.  

E ainda pretendem piorar, diversas leis estão em tramitação no Congresso Nacional e no Senado para retirar mais direitos e outras tantas estão sendo aprovadas para reprimir qualquer tipo de manifestação social e trabalhista. 

Apesar de toda fragmentação que o capital tem conseguido semear entre a classe trabalhadora, onde cada um, de início, começou a entender-se como empreendedor, um eufemismo para esconder a uma superexploração, tudo tem um limite. E quando milhões começam a perceber que a situação é insustentável criam uma identidade que os move para determinados propósitos. Foi o que aconteceu no dia 01 de julho do ano passado quando milhares de trabalhadores de APPS paralisaram suas atividades e fizeram manifestações por diversas cidades. O que não está explicado é porque essa unidade foi tão fugaz.

A “esquerda” oficial se incorporou ao “neoliberalismo”

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O filósofo italiano Franco Berardi chama a atenção para a situação de uma geração “sem futuro”, ou seja, a ideia de futuro, ao invés de uma projeção positiva estaria com o sinal trocado. O desenvolvimento tecnológico que prometia um mundo melhor é percebido como ameaça. As epidemias de depressão e “desistência” são os sintomas de um sujeito fragmentado nessa situação.

O trabalhador passa a ser escravo do tempo na medida que deve estar sempre a disposição do ciberespaço produtivo, reprogramável. O próprio tempo é para o trabalhador fragmentado ou celular, o que implode qualquer perspectiva de futuro porque impede a subjetivação do sujeito.

Dentre outras coisas Berardi propõe a necessidade de um Rendimento Básico Incondional (RBI) como forma de permitir a sobrevivência social, todos têm direito de existir, mas que não esteja condicionado à disponibilidade de cada um para trabalhar. Pelo contrário, tal rendimento faz todo sentido na medida em que os avanços tecnológicos podem nos deixar livres. Livres do trabalho.

A emancipação da Humanidade passa pela libertação de muitos trabalhos que podem ser feitos pelas máquinas e os seres humanos poderiam se ocupar de coisas bem mais interessantes que elas não podem fazer.

A expressão “desemprego” passaria a ser “tempo de vida emancipado”. Quem sabe aí poderia renascer o pensamento crítico decepado pelo crescimento vertiginoso das informações produzidas pelas redes sociais.

Franco Berardi

Perguntado sobre o alarmante número de suicídios entre os jovens, como a segunda causa de morte entre eles e a depressão como a segunda maior causa de incapacidade, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), Bernardi respondeu:

“Entre finais da década de 1970 e 2013, a taxa de suicídio aumentou 60% em todo o mundo, segundo dados da OMS. Como podemos explicar este aumento brutal?! O que aconteceu há 40 anos atrás? Como referi antes, Margaret Thatcher declarou que a sociedade não existe; paralelamente, o neoliberalismo eliminou a empatia da esfera social. Depois, a tecnologia digital começou a destruir a possibilidade do real, da relação física entre humanos; a emergência de Tony Blair é a prova de que a Esquerda morreu – refiro Blair por ser mais fácil de identificar, mas juntamente com ele estão muitos outros líderes. A Esquerda nunca foi capaz de equacionar alternativas como o RBI e outras, e embarcou no discurso neoliberal: pleno emprego, oito horas por dia, cinco dias por semana durante uma vida inteira. Isto é cada vez menos viável. O pleno emprego é algo impossível, o que temos é mais precariedade para todos, cortes nos salários para todos, mais trabalho para todos, em suma, uma nova escravatura. A isto somam-se dois aspectos importantes. Primeiro, a obrigação passou a ser parte integrante da nossa formação psicológica e a competição tornou-se no princípio moral universal. Segundo, passamos a julgar-nos em função do critério da produtividade. Existe apenas um modelo, um padrão, que é o da competição e sentimo-nos culpados de todos os nossos “fracassos”, seja ele o desemprego ou a pobreza. Há quem lhe chame auto-exploração.” (http://www.ihu.unisinos.br/188-noticias/noticias-2018/580228-o-pensamento-critico-morreu-entrevista-com-franco-berardi).

Adeus às libélulas

Então temos uma nova geração nascida dentro do “neoliberalismo” que não tem mais e nem vai ter, carteira assinada, horário fixo de trabalho e alguns direitos. Sem sindicatos combativos, sem partidos revolucionários de massas e sem organização fordista, os que estão na ponta da precarização, sem mais nada a perder podem ser levados à luta em um movimento distinto e surpreendente. Adeus às libélulas dos grandes aparatos sindicais adaptados ao neoliberalismo.

A radicalização do capital em crise leva à radicalização do movimento de massas. E uma radicalização que pode levar a revoluções porque não vai restar outra coisa aos trabalhadores, eles não terão nada a perder a não ser seus grilhões.

O período da contrarrevolução capitalista, o furacão “neoliberal” está em xeque, com os polos opostos se afastando. Os grandes capitalistas buscam se salvar da crise por meio de ditaduras ferozes, do fascismo e de grandes guerras.

A crise capitalista é o motor que colocará em movimento aos trabalhadores e os povos do mundo. O papel dos revolucionários é justamente organizar a luta.

Levante ! Organize-se! Lute!
A hora de Lutar é Agora!

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