CHINA: SOBRE PRESSÃO DOS PRÓPRIOS CAPITAIS PODRES
Um componente muito importante para compreender o aprofundamento da crise capitalista mundial é entender claramente o papel da China no mundo.

A China e a Crise Mundial

Falam muitas coisas sobre o papel da China e a maior parte do que se fala não tem absolutamente nada a ver com a realidade. Há várias teorias, como por exemplo, se diz que a China seria um estado operário deformado.

Outros falam que a China é uma ditadura feroz. Outros falam que a China é hiper subdesenvolvida. Outros falam que o povo está à beira de uma rebelião.

Após a visita do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, à China, em 1971, no pico da crise entre a China e a União Soviética. Em 1968, chegaram a acontecer confrontos armados na fronteira e, em 1977, houve confrontos armados com o Vietnam, na época um aliado muito próximo da União Soviética, por conta da intervenção deste em Camboja.

A China foi um dos pilares para a implantação do “neoliberalismo” no mundo, na década de 1980, com as zonas industriais francas, que não pagavam impostos e onde os trabalhadores chineses ganhavam um salário aproximadamente US$ 30 mensais.

Um canteiro de obras com os pés de barro

Na China, os salários hoje, dependendo da região, podem ser de várias centenas ou até milhares de dólares. Por exemplo, em Xangai, a principal cidade da China, em Beijing, a capital, ou em Canton e Shenzen, os salários têm disparado sob a pressão do aumento do custo de vida que se relaciona, em grande medida, com o aumento dos preços dos alimentos e das matérias primas, por causa da especulação financeira, assim como ao alto custo da moradia por causa da especulação imobiliária.

Ao mesmo tempo, que ganham salários no geral equivalentes ao do Brasil. De maneira parecida com o que acontece no Brasil, as contradições sociais ainda são muito grandes.

Na China, as contradições estão minimizadas devido a que é um grande canteiro de obras. Por exemplo, as principais cidades são limpas e organizadas.

O centro de Xangai apresenta uma urbanística impressionante, de prédios futurísticos etc., que poderia lembrar Singapura, Kuala Lumpur (Malásia) ou mesmo Dubai. A pobreza na rua, nas principais cidade, aparece muito pouco, a diferença do que acontece no Brasil.

Por meio de um investimento muito grande que a China tem feito desde 2009, em cima de um grande programa de recursos públicos para gerar obras públicas, gerou um grande movimento da economia.

O primeiro grande direcionamento de recursos públicos para obras de infraestrutura  aconteceu em 2009, com US$ 800 bilhões de dólares. O objetivo era minimizar o impacto da crise capitalista mundial que tinha provocado a sensível redução das exportações. Mas nada na vida e na sociedade está isento de um custo.

Em 2012, com o novo aprofundamento da crise mundial e o esgotamento do investimento de 2009, o governo chinês, por uma série de mecanismos, liberou recursos gigantescos para uma nova onda de obras públicas.

As províncias chegaram a depender em 40% na média, nas concessões de terras públicas por 99 anos, que eram destinadas para a construção de aeroportos, prédios de apartamentos etc.

A China acabou atuando como um grande canteiro de obras e movimentando a economia mundial. Tanto por meio da importação de matérias primas como, por exemplo, a importação do ferro brasileiro, cobre chileno, petróleo do Oriente Médio, quanto de alta tecnologia de empresas como Erickson, Siemmens, empresas de informática e de vários outros setores têm exportado muito para a China.

O custo da aceleração produtiva chinesa

O custo da aceleração produtiva chinesa se relaciona, em primeiro lugar, com um alto grau de endividamento, principalmente das empresas.

Segundo estatísticas do final de 2017, o endividamento das empresas chinesas é de aproximadamente US$ 18 trilhões de dólares, ou seja, 179 % do PIB. Somando a dívida das províncias e municípios, que aparece de uma maneira meio camuflada por meio da especulação de títulos públicos, financeira, o número ultrapassa os 250% da produção anual.

Esse grande endividamento, por enquanto, não está se manifestando na desestabilização social. A título de exemplo, na China, a polícia não anda armada nas principais cidades, num país que tem uma população de 1,3 bilhões de habitantes.

O comportamento da polícia na rua é totalmente diferente do comportamento super agressivo que acontece no Brasil; seria um comportamento quase europeu. A teoria de que a população estaria à beira de uma insurreição não é fato.

Ainda segundo a campanha da imprensa imperialista, a China estaria à beira da insurreição, com greves acontecendo em todos lados. Isso não é verdade.

Apesar das contradições sociais, há a movimentação da economia chinesa e uma grande pacificação social, apesar de todos os problemas. Por exemplo, na China, não existe previdência pública como no Brasil. As leis trabalhistas só foram aplicadas há cinco anos.

De vez em quando, estoura alguma greve como a que aconteceu, em 2013, na FoxConn, a empresa de Taiwan que monta os Iphone, da Apple. Mas essa notícia não vazou para a população em geral porque há uma censura grande na China, inclusive na Internet.

Da censura ao nacionalismo

Uma série de aplicativos e sites não funcionam como, por exemplo, o YouTube e o Facebook. O Estadão, site estadao.com.br, e o Jornal El Pais da Espanha estão bloqueados. O site da Globo funciona de maneira muito lenta. Muitos estrangeiros costumam usar VPNs para ter esse acesso, mas a população em geral usa os aplicativos alternativos disponibilizados pelo governo.

Por exemplo, em vez de WhatsApp eles usam o WeChat que amarrado a vários outros aplicativos, como o Alipay. O Alipay permite a realização de pagamentos a partir do celular inclusive em comércios pequenos e barracas de rua. A China é o país onde menos se usa dinheiro físico.   

Portanto, a espionagem e a censura do imperialismo, que acontece a partir das redes sociais, por meios de aplicativos como o Facebook, o YouTube e o WhatsApp tem um impacto muito menor na China.

O aprofundamento da crise capitalista não aparece muito na China por conta do desenvolvimento tendencial nos últimos anos, e, também, da política do governo de movimentar o consumo por meio de recursos públicos. A população está pacificada no geral; não existem grandes movimentações. A greve da FoxConn passou por cima dos sindicatos do governo.

O sindicalismo é diretamente atrelado ao governo. Não existem sindicatos independentes; também não existem partidos políticos independentes.

O partido que existe é o Partido Comunista Chinês que faz toda uma campanha a favor do socialismo, da democracia, com grandes cartazes pelas ruas etc. A população não acredita muito, mas vai levando dado.

O “tigre de papel” da economia produtiva da China

A especulação imobiliária com prédios de apartamentos tem se transformado em um dos principais mecanismos para movimentar a economia, chegando a representar quase a quinta parte. As pessoas compram e acabam se endividando. Por exemplo, um apartamento num subúrbio de Pequim, de dois dormitórios, gera um custo aproximado de 5.000 iuanes/mês, ou mais ou menos R$ 2.500,00.

Isso já significa que para um chinês “bem sucedido” precisa ganhar, pelo menos, R$ 5.000,00 reais. Isso está a anos-luz dos US$ 30 que ganhava na década de 1980. A globalização os preços das commodities alimentícias, das commodities de energia, que são muito pressionadas pela especulação financeira, e a especulação imobiliária impactam o País. Então isso aumenta a carestia de vida e os salários têm sido aumentados para evitar a desestabilização social.

As exportações chinesas representam perto de 40 % por cento da economia. Bem menos do que foi na década de 1980, mas ainda extremamente importante.

O que a China tem feito para resolver o problema da alta dos salários?

Acelerou a robotização, convertendo-se no país que mais implanta robôs no mundo.

Mas qual é o impacto da robotização?

Os preços caem, mas o capitalismo continua sendo o capitalismo. Conforme Karl Marx demonstrou no O Capital, o aumento da composição orgânica do capital, ou seja, do capital fixo (máquinas e matérias primas) em comparação com o capital circulante, gera a queda na taxa de lucros que precisa ser compensada por meio da intensificação da exploração da força de trabalho.

A própria automatização acelera esse processo por meio de ataques aos trabalhadores na busca de acelerar a produção de mais-valia, absoluta (extensão da jornada de trabalho e redução dos salários) e relativa (intensificação da exploração dos trabalhadores). As contradições intrínsecas ao capitalismo aumentam e tendem a exacerbar as contradições sociais em escala mundial.

Os pés de barro do Novo Caminho da Seda

A China iniciou num programa há sete anos atrás, chamado Novo Caminho da Seda, que implica no desenvolvimento de vias rápidas para o envio de produtos chineses para a Europa, principalmente sob o trem-bala. Começaram a levar produtos a Londres; baixaram o tempo de 45 dias para 25 e poderão reduzi-lo ainda mais nos próximos anos.

Na aliança para viabilizar o Novo Caminho da Seda, a Rússia atua como pivô da aliança Euro-asiática China, por meio influência que exerce principalmente sobre as repúblicas da Ásia Central, do Cáucaso e mais recentemente, a partir da intervenção na Síria, no Oriente Médio. Essa política explica em parte a aproximação, mesmo que contraditória, entre a Alemanha e a Rússia.

A política do Novo Caminho da Seda tem como objetivo resolver o problema da China, da exportação de produtos, de manter a economia funcionando e da dificuldade para trazer energia para a China, driblando a armadilha do Estreito de Malacca (entre a Malásia e a Indonésia), por onde passa 70% da energia que tem como destino à China e que é controlado pela marinha dos Estados Unidos.

Um investimento muito grande está sendo realizado no Paquistão, com o objetivo de trazer petróleo e gás do Irã, por meio Paquistão, principalmente a partir do porto de Gwadar. O corredor passa pelo Balochtitlão, onde há guerrilheiros separatista que atuam há décadas, e entra na província de Xinjan, onde há o separatismo da minoria Urda.

A luta pelo controle do mercado mundial, principalmente nas condições do acelerado aprofundamento da crise capitalista, exacerba as contradições entre as principais potências. A China precisa aumentar o controle do mercado mundial; o imperialismo precisa manter o controle, sua hegemonia.

Este é o aspecto objetivo que está na base de uma grande guerra, além da sequencia de guerras menores, e também de guerras híbridas (com todo tipo de agressão, mas sem tropas formais), que tem se sucedido nas últimas décadas.

O governo central chinês busca conter os movimentos nacionalistas por meio do desenvolvimento a partir de investimentos bilionários. Mas o grande problema além dos problemas políticos se relaciona com a estrutura do capitalismo.

Os chineses tentam resolver a crise inundando o mundo de produtos baratos, fabricados, em grande medida, por meio de robôs. Isso ai gera problemas graves nas leis do capital. O robô não gera valor a longo prazo porque ele precisa ser amortizado.

Durante um período ele pode gerar uma taxa de absorção de mais-valia diferenciada mas isso tende a se estabilizar. Marx demonstrou isso perfeitamente, principalmente no Livro III de O Capital. Os chineses também entram com a aceleração do consumo que é a política aplicada em escala mundial.

A aceleração do consumo, o Novo Caminho da Seda e a aceleração da especulação financeira, junto com a inserção da China no setor de alta tecnologia são as principais políticas da China para enfrentar a crise, ratificadas pelo 19º Congresso do Partido Comunista Chinês, que aconteceu em outubro do ano passado.

A China representa um ponto de estabilidade muito importante do capitalismo mundial, ao mesmo tempo que representa um fator de uma guerra em larga escala. Mas o capitalismo continua sendo capitalismo. As contradições continuam se acirrando e a crise capitalista acelerando.

Um novo colapso capitalista mundial está colocado para o próximo período. E esta é a base do novo ascenso do movimento operário em escala mundial.

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