Uruguai, Tabaré Vásquez: Mocinho ou Bandido?
No dia 6 de dezembro de 2020 faleceu o ex presidente do Uruguai e membro da Frente Ampla, Dr. Tabaré Vázquez Rosas.

Uruguai, Tabaré Vásquez: Mocinho ou Bandido?

Cabe fazer uma reflexão. Não tanto sobre a pessoa de Tabaré que, em princípio, foi uma boa pessoa.

Essa reflexão deve ser realizada sob o ponto de vista da política que foram aplicadas nos seus dois governos e principalmente pela Frente Ampla, que governou o Uruguai durante três governos e que governa a capital do País, Montevideo há mais de 20 anos.

A Frente Ampla (FA) que governa o Uruguai desde a bancarrota de 2002, que aconteceu sob o impacto da bancarrota da Argentina, tem sofrido enorme desgaste por causa do aumento da pressão do imperialismo.

Esse processo começou a escalar a partir da “clássica” campanha “contra a corrupção” que normalmente precede todo golpe de estado. Raúl Sendic, o então presidente da ANCAP, a Petrobras uruguaia, foi acusado de realizar gastos pessoais com o cartão corporativo, com o qual teria comprado um colchão.

Raúl Sendic
Pepe Mujica

A defesa “inexplicavelmente” fraca da acusação de que o filho do ex fundador do Movimento Tupamaros, que seria um dos candidatos fortes da FA, o colocou para fora da política oficial. O clima interno de direitização continuou, envolvendo até o próprio José Pepe Mujica, que chegou a fazer declarações direitistas contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela; até ele próprio renunciar ao Senado e se retirar da vida pública, alegando cansaço.

Por que a Frente Ampla foi derrotada nas eleições de 2019?

O segundo governo de Tabaré Vázquez fechou com o déficit público no Uruguai em quase 5% do PIB, quase um recordo mundial. No governo Mujica, tinha sido de 1,7%.

Cabe lembrar que o sempiterno ministro da Economia, o “neoliberal” Danilo Astori, foi o responsável por ter mantido o Uruguai como um importante “aplicador” das políticas impostas pelo imperialismo.

Com as contas públicas indo ao precipício e com o agravamento da crise mundial, os caciques da FA (Frente Ampla), incluindo Tabaré Vázquez, divulgou durante a campanha eleitoral que iria manter e ainda melhorar os programas sociais. Mas nunca deixou claro de onde iria tirar o dinheiro.

O FMI (Fundo Monetário Internacional), os grandes bancos e os Estados Unidos não iriam enfrenta-los? Quem iria pagar a conta, os banqueiros internacionais em crise ou o povo?

A dívida pública era de US$ 6 bilhões em 2000, passou para US$ 15 bilhões em 2003 e em 2019 era de cerca de US$ 40 bilhões, e crescendo.

O PIB passou de US$ 14 bilhões em 2002 para US$ 60 bilhões em 2019, mas o eixo da economia passou para o plantio de soja transgênica e eucaliptos; estes para mover as enormes empresas de papel celulose.

Assim, as condições de vida melhoraram, mas o futuro das gerações futuras foi hipotecado. Os níveis de poluição têm ultrapassado recordes históricos e o país pode se tornar um “deserto verde” já em algumas décadas.

40% da população vivia em situação de pobreza, em 2002; hoje é coisa do passado. Mas até quando? A direita já disse muitas vezes para o que veio. Seu modelo é o do Chile que está na base da gigantesca revolta popular: matar a todos da fome para salvar os bancos internacionais.

Uruguai como um laboratório para impor o modelo brasileiro na A.L.

No Uruguai, há a tentativa de reproduzir o modelo brasileiro, para depois leva-lo a toda a América Latina: “pior corrupção da história da Petrobras / Ancap”; volta da direita para entregar tudo; militares nas ruas; a “esquerda” atuando como se estivesse na Suíça de 1880 (tudo “paz e amor”).

Quando a alta cúpula da FA viu as contas públicas irem ao precipício e o aumento da pressão do imperialismo norte-americano, o que devemos achar que eles planejaram fazer? No Brasil, foi fazer uma campanha eleitoral para perder; permitir que a direita vencesse, com o cálculo de retornar em 2022, depois que a direita fizer o “trabalho sujo” contra os trabalhadores. E no Uruguai? Idem. A FA entregou as eleições presidenciais para a direita fazer o “trabalho sujo”.

Carolina Cosse,(Frente Ampla), prefeita de Montevideo

Em troca, nas recentes eleições municipais, a continuou com o controle da Prefeitura de Montevideo e do segundo departamento mais importante, que funciona como uma extensão de Montevideo, o Departamento de Canelones.

Uma boa parte da desestabilização do Uruguai começou a partir de 2017 quando o PCC brasileiro começou a atuar. O clima de insegurança escalou o que foi amplificado pela imprensa oficial, de direita e de “esquerda”.

No Uruguai, começaram a aparecer vários casos escandalosos do tráfico de drogas. O país usado como hub pelos grandes carteis, que por trás têm a CIA, a DEA e o Mossad.

A direita impôs e aprovou a LUC (Lei de Urgente Consideração), com mais do dobro de artigo que a Constituição vigente, até passando por cima do que tinha sido rejeitado por referendos.

A “esquerda”, principalmente a FA, se limitou a dizer que não podia fazer nada porque agora a direita (e a extrema direita) tinham a maioria do Parlamento. Aqui vale a pena lembrar que quando a FA teve a maioria também não fez nada estruturalmente importante.

O Uruguai hoje tem leis vigentes muito avançadas em relação à maconha, casamento gay e outros. Mas é um dos países onde a concentração da propriedade da terra tem aumentado de maneira mais escandalosa.

Como enfrentar a direita

Manifestação contra a Lei de extrema Urgência (LUC)

O Uruguai foi “selecionado” como laboratório do imperialismo por causa da proximidade com o Brasil, do qual depende economicamente por meio do Mercosul.

Se trata de um país relativamente “pacato” e com relativamente baixo impacto econômico o que reduz os riscos. Embora que dado o grau de integração da economia global tudo pode acontecer; a faísca que pode disparar um novo colapso capitalista mundial pode vir de qualquer lugar, ainda mais considerando a crescente fragilidade da economia.

A fragilidade da FA e a crescente fragilização do movimento sindical, que tem grandes tradições de luta, como a grande greve geral contra o golpe militar de 1973 que durou três meses, facilitaram a movimentação.

Para derrotar a direita, é necessário, em primeiro lugar, denunciá-la claramente. Era, e continua sendo, preciso dizer que o modelo da direita é o Chile. Para manter e melhorar os programas sociais, é necessário denunciar o FMI e os Estados Unidos.

Esta decisão só pode ser tomada se o povo estiver disposto a assumi-la e fazer esse confronto. As mentiras virão a luz em breve porque está colocada no Uruguai uma nova crise de 2002 piorada.

Frente Amplio: De representante do movimento operário a “gerente” do imperialismo

A política dos “bons moços”, que não enfrentam o imperialismo nem confrontam a campanha reacionária da suposta “luta contra a corrupção” vem de longa data e se acentuou após o fim da Ditadura Militar em 1984 e principalmente com o aumento da pressão do imperialismo para impor as chamadas políticas “neoliberais” após a queda do Muro de Berlim.

A FA foi fundada em 1971, fortemente influenciada pelo avanço do movimento operário e pelas mobilizações populares. Seu programa incorporou o programa da CNT (Convenção Nacional dos Trabalhadores). Participaram os “progressistas” dos chamados partidos “tradicionais” (Colorado e Blanco), dos partidos de esquerda, do PCU (Partido Comunista) e do PS (Partido Socialista), católicos e independentes.

O primeiro congresso, realizado em 1987, contou com 2.340 delegados eleitos pelos comitês de base, que tiveram uma ampla participação popular e nacional; 109 nomeados pelo Plenário. Após o golpe militar de junho de 1973, a FA foi colocada na ilegalidade, até o final da Ditadura Militar em 1985.

Nas eleições de 1989, a FA venceu na cidade de Montevidéu, onde mora quase a metade da população. A pressão do imperialismo para impor as chamadas políticas “neoliberais” foi um marco no fortalecimento dos setores pró-imperialistas, que passaram a buscar a conquista do governo nacional por meio da adoção do próprio programa “neoliberal” e a erosão da influência do bases.

Em 1992, sob forte pressão popular, fracassou um referendo que tinha como objetivo a privatização de cinco grandes empresas estatais, em um pacote de 32 empresas a serem privatizadas. Mas com a cumplicidade dos líderes da FA, três delas foram finalmente privatizadas (pesca, gás e aviação). O setor de telefonia acabou sendo liberalizado.

Em 1996, houve outro momento crucial na evolução da FA para a direita em torno de discussões para reformar a Constituição por meio de um referendo apoiado pela FA.

No dia 5 de fevereiro, Liber Seregni, o líder histórico da FA, renunciou à presidência e, junto com o novo presidente, Tabaré Vázquez, e Danilo Astori (o eterno ministro de Economia dos governos da FA), foi a favor da reforma, apesar das bases terem se manifestado em contra. Tabaré Vázquez se viu forçado a fazer campanha contra a reforma.

Seregni, Astori e sua facção na FA (Assembleia do Uruguai), na prática, não participaram da campanha. Como resultado, a reforma foi aprovada em 8 de dezembro com uma diferença de votos de 0,5%. Com base nessas reformas, em 1999, a FA ganhou o primeiro turno das eleições nacionais, mas foi derrotada no segundo turno pelo Partido Colorado.

Com a erosão dos governos de direita nos anos 2000, em cima do aprofundamento da crise provocada pela entreguismo mórbido ao imperialismo, a FA tornou-se a alternativa de esquerda para estabilizar o regime. Na cidade de Montevidéu, centenas de indústrias e serviços foram privatizadas.

Montevidéu

As decisões do Congresso da FA foram repetidamente ignoradas pela cúpula da FA. O de 2008, por exemplo, aprovou a entrada na ALBA, a retirada das tropas uruguaias no Haiti, o cancelamento da Lei de Caducidade (sobre a anistia aos crimes da Ditadura Militar) e a aplicação de políticas econômicas que favoreceram a economia nacional contra entrega do País ao imperialismo. Todas essas resoluções foram ignoradas pela cúpula da FA,  pelos governos e os congressistas.

A FA teve a maioria absoluta no Congresso e poderia ter revogado a Lei de Caducidade na sua totalidade. No entanto, os “acordos” impostos pelo imperialismo norte-americano não o permitiam e a Direção da FA não teve nenhuma intenção de impulsionar o movimento de massas para ultrapassa-lo.

O objetivo era manter a “governabilidade”, aplicar alguns programas sociais e, em cima dessa base eleitoral, subir na vida amarrando o burro na sombra do estado. Isto é perfeitamente compreensível, pois se trata da típica política da pequena burguesia, das camadas médias da população e das burocracias dos movimentos sociais, sindicais e dos partidos políticos que têm ligações com o movimento de massas e que usam as organizações sociais formadas nas lutas, e que se transformaram em aparatos controlados pelo estado e a burguesia no refluxo, em benefício próprio.

A melhoria de alguns indicadores sociais como o desemprego, que foi reduzido para 5%, seu nível histórico mais baixo, e alguns programas sociais, implicou num grande custo para o País. O pagamento prioritário da dívida pública tem impedido investimentos em saúde e educação, que apesar disso é bastante melhor que nos demais países da América Latina, onde o sucateamento é ainda pior; tornou o investimento produtivo impossível; mais da metade das terras do País foram outorgadas a capitalistas estrangeiros; as principais empresas do País, a maioria delas estatais, foram entregues às “multinacionais”, aos monopólios imperialistas.

A política para a agricultura tornou-se a produção de produtos agrícolas com forte impacto ambiental e baixa geração de empregos: o mono cultivo de soja, de eucalipto e alguns cereais, com um alto uso de transgênicos e pesticidas, o paraíso fiscal do agronegócio, o reino de enormes plantas de papel celulose hipotecando o futuro das próximas gerações etc.

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