Venezuela: Do Caracaço a Hugo Chávez e à decadência com Maduro

Venezuela: Do Caracaço a Hugo Chávez e à decadência com Maduro

Em fevereiro de 1989, estourou o primeiro levante de massas no mundo com as denominadas políticas “neoliberais”.

O presidente Andrés Carlos Pérez entrava no segundo mandato com um pacotaço que tinha como carro chefe o aumento do preço dos combustíveis.

Até esse momento, tudo seguia na mais “perfeita” normalidade de acordo com a cartilha do Pacto de Punto Fijo de 1959 que  tinha definido as regras da “democracia” após a derrubada do ditador Pérez Jiménez.

A Venezuela e o México foram os únicos dois países importantes da América Latina onde o imperialismo norte-americano não impôs as genocidas ditaduras militares. Eram potências petrolíferas, o que lhes dava a condição de manter um certo colchão social dentro de sociedades onde predominavam a miséria absoluta.

O Caracaço começou na cidade de Guatire, vizinha da cidade de Guarenas, localizada a apenas 50 quilômetros de Caracas, e que funciona como uma cidade dormitório.

O motivo dos “pacatos” guatirenses e caraquenhos para a revolta foi a uma faísca parecida com todas as gotas de água que enchem o copo da paciência dos povos e dão lugar a grandes rebeliões e revoltas populares.

Pela manhã do dia 27 de fevereiro de 1989, muito cedo, o povo trabalhador foi pegar os ônibus para se locomover a Caracas para trabalhar. Os preços das passagens tinham disparado. A indignação se generalizou. O que começou como protestos, gritarias e “pula catracas”, rapidamente se transformou em queima de ônibus e saque de supermercados e comércios. A polícia foi ultrapassada.

O exército entrou em cena. O número de pessoas assassinadas pela truculência oficial varia entre 300, na versão oficial, e 5.000 de acordo com a versão de várias organizações sociais.

As feridas importantes sempre deixam sequelas

Uma parte da oficialidade jovem que tinha visto e participado da operação de guerra contra a população, ficou estarrecida e tentou um golpe de estado em 1992, que foi liderado pelo então tenente coronel Hugo Chávez Frías.

O golpe foi derrotado, mas esses jovens oficiais organizaram um agrupamento político e venceram as eleições de 1998 com a bandeira principal de acabar com o Pacto de Punto Fijo e de convocar uma constituinte.

O novo governo aprovou a Constituição Bolivariana em 1999. Apesar de terem mantido intactas as estruturas fundamentais da dominação das oligarquias locais e do imperialismo, havia várias reformas que atentavam contra o poder estabelecido.

Uma parte importante da renda petrolífera foi direcionada aos programas sociais.

Um golpe militar em 2002 e um lockout patronal na PDVSA (empresa estatal do petróleo) fracassaram.

O Caracaço tinha mostrado que até os povos mais pacatos sob condições de muita pressão tendem a explodir em revoltas. Os golpes fracassados sempre enfraquecem as estruturas de dominação da burguesia e do imperialismo.

A bonança dos governos de Hugo Chávez

Durante os governos de Hugo Chávez, as condições de vida da população experimentou enormes melhorias. Haviam recursos fartos provenientes dos altos preços do petróleo.

Mais de 40% do orçamento do estado foi destinado a programas sociais e mais 20% a subsídios.

A burguesia continuou mantendo altos lucros. Em torno de três mil empresas foram nacionalizadas; a maioria delas muito bem indenizadas.

Chávez tentou criar um poder paralelo, o Poder Popular, baseado em comunas de produção e consumo, localizadas principalmente em comunidades rurais. Fortaleceu os coletivos, como milícias informais.

A não ruptura com o imperialismo, a continuidade do poder da burguesia local e dos aparatos do estado burocrático foram o principal freio para as boas intenções de Chávez. Mesmo a limpeza realizada no Exército e de parte dos serviços de inteligência não afetaram o grosso da corrupção policial e dos esquadrões da morte oficiais, que em boa medida fazem parte dos aparatos da repressão estatal.

A corrupção continuou solta mesmo durante os governos de Chávez. O caso mais escandaloso foi o da Cavidi, o organismo que entregava aos cidadãos venezuelanos US$ 5 mil por adulto/ ano para viajar, responsável por desvios superiores a US$ 20 bilhões. Ninguém foi punido, e também houve muitos outros casos, embora menores.

A partir da queda dos preços do petróleo com a crise de 2008, o governo de Chávez começou a enfraquecer-se. O endividamento disparou, principalmente com os chineses e os russos.

A decadência terminal do chavismo com os governos Maduro

A Venezuela seguiu aproximadamente o mesmo caminho que seguiram os demais governos “progressistas” na América Latina. Enfraquecimento, decadência e derrubada pelo imperialismo.

O aprofundamento da crise econômica facilitou as guarimbas (protestos e piquetes manipulados pela direita) de 2014 e 2017.

Por meio de manobras, o governo Maduro conseguiu vencer as eleições de 2017 para governadores e as de 2018 nos municípios. Com manobras muito mais obscenas, que incluíram o controle até dos partidos da direita por meio da Corte de Justiça, venceu as eleições legislativas de 2020.

Hoje, a decadência na Venezuela é total. A economia se encontra em frangalhos. O endividamento público oscila entre US$ 300 bilhões e US$ 500 bilhões, algo em torno a cinco a 10 vezes a produção anual.

O salário mínimo bate todos os recordes mundiais: entre US$ 2 a US$ 4 mensais, enquanto os preços dos produtos básicos continuam aumentando, alinhando-se com os preços internacionais.

Os serviços públicos são praticamente de graça, mas muito precários.

O preço da gasolina é quase de graça para 120 litros mensais, mas é preciso enfrentar filas enormes.

Em parte, os problemas da Venezuela se relacionam com as sanções e a pressão do imperialismo. Mas o outro componente é a ação depredadora da bolivo-burguesia que faz qualquer coisa para manter seus lucros e privilégios, obtidos principalmente nos negócios com os chineses e os russos, mas também com o imperialismo em conluio com a burguesia tradicional.

Uma perspectiva revolucionária para sair da crise

O movimento de massas na Venezuela foi ainda mais apodrecido e cooptado que no Brasil. Uma primeira visão, impressionista, seria dizer “esse povo não tem jeito”, “aqui nunca acontecerá nada”.

Mas o Caracaço, assim como todas as revoltas populares e revoluções nos ensinam que é o aprofundamento da crise capitalista o que desestabiliza o capitalismo e impulsiona os trabalhadores e os povos a lutarem.

Hoje vivemos a maior crise capitalista da história. A maquiagem da pandemia fica a cada dia mais fraca e aparece a brutalidade do capital em crise por detrás.

Há trilhões de capitais podres, fictícios, especulativos nas mãos dos grandes capitalistas. Todas as movimentações do imperialismo têm sido direcionadas para salva-los da própria crise.

Para o próximo período, teremos novas convulsões da atual crise em desenvolvimento. A saída capitalista é a guerra, as ditaduras pinochetistas, o massacre dos povos. A saída dos trabalhadores e dos povos é a destruição do capitalismo.

A tarefa central da esquerda revolucionária e anti-imperialista é organizar a luta dos trabalhadores e do povo. E a principal ferramenta é a propaganda e a agitação das políticas revolucionárias capazes de tirar o Brasil da crise.

Levante ! Organize-se! Lute!
A hora de Lutar é Agora!

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